Poubels

Além do instante.

Platão
Ruyter voltou à caverna. Os companheiros ainda disputam os lugares de onde melhor se veem as sombras; ele já não disputa. Quando lhe pedem que anuncie a próxima, hesita, e riem: a viagem estragou-lhe os olhos. Chamam-no Louco. Diz-me, Aristóteles: o que aprenderam sobre ele ao vê-lo tropeçar?
Aristóteles
Que naquele momento não enxergava bem. Ainda não aprenderam por quê. Mas tu nos deste algo que eles não possuem: sabemos que ele esteve fora. Para os que ficaram, a notícia de outra realidade chega pela boca de um homem que parece menos capaz de julgar esta. Como poderão examiná-la?
Platão
Antes de tudo, deixando de tomar toda perturbação dos olhos pela mesma doença. Há quem se ofusque ao sair para a luz e quem, vindo dela, mal distinga o escuro. O movimento é contrário, embora o embaraço se pareça. Se só julgarem a hesitação, não saberão distinguir quem começa a aprender de quem regressa depois de ter aprendido.
Aristóteles
Concedo. Não é justo concluir que ele perdeu o entendimento. Mas sua lembrança do exterior também não pode servir aos outros como se fosse a própria experiência. Ele terá de mostrar o que antes compreendiam mal. Que pergunta pode fazer-lhes sem exigir que primeiro acreditem em sua superioridade?
Platão
Pode perguntar ao melhor adivinho da parede o que produz aquilo que ele prevê. Ali também se fala do futuro: um homem recorda as sequências, anuncia o que virá e recebe honras pelos acertos. É esse jogo que Ruyter deixou. Agora vê que antecipar a próxima sombra pode manter um homem ocupado por toda a vida, sem que ele se volte uma única vez.
Aristóteles
Seu aprendizado anterior não era nulo; conhecia regularidades. O erro seria tomá-las por explicação suficiente. E há outra pergunta que o adivinho talvez não faça: para que deseja prever? Pode organizar muitos anos em favor de uma vida que não merece ser escolhida. A habilidade alcança fins; a prudência exige que também se julgue o que vale a pena desejar.
Platão
Dá então a Ruyter a figura do Louco que viaja com uma pequena trouxa e detém o passo à beira de um precipício. Quem o olha vê sobretudo o que ele pode perder. Ele olha adiante. A imagem me interessa porque a primeira partida não foi feita por um sábio que já conhecia o caminho inteiro. Se o fosse, de que precisaria libertar-se?
Aristóteles
Interessa-me também o chão que ele não está olhando. Dois homens podem dar o mesmo passo: um conhece o perigo e aceita enfrentá-lo por algo digno; o outro nem o percebeu. A confiança exterior não nos revela a diferença. Não gostaria que fizéssemos da ignorância do risco uma condição para a liberdade.
Platão
Nem eu. Mas, se exigirmos do prisioneiro o conhecimento que só adquirirá depois de se voltar, teremos justificado sua imobilidade. No começo, o movimento dói; o que sempre viu lhe parece mais verdadeiro que aquilo que agora mal consegue distinguir. Ele pode desejar que o deixem em paz. Sua resistência não demonstra que a educação o esteja prejudicando.
Aristóteles
Não exijo que chegue antes de partir. Exijo que distingamos o motivo do primeiro passo do conhecimento adquirido depois. Pode começar confiando em alguém; terá de aprender a julgar aquilo que encontra. Tendo percorrido esse caminho, Ruyter pode lembrar quanto tempo levou. Não deveria esperar que os outros mudassem de vida à primeira frase que lhes dirige.
Platão
E se, em vez de lhes dirigir um discurso solene, aparecer como o bobo? Chamemos a essa outra figura Joker, o coringa. Ele toma a coroa que todos reverenciam, põe-na torta na própria cabeça e pergunta o que, exatamente, a tornou digna de reverência. Talvez consigam ouvir essa pergunta numa brincadeira, quando a recusariam como acusação.
Aristóteles
Talvez. Mas a coroa torta não torna injusto o governo, assim como a coroa direita não o torna justo. É preciso que a brincadeira deixe alguma coisa a examinar. Há quem faça rir com discernimento; há quem sacrifique qualquer consideração para obter o riso. Este último precisa tanto de aprovação quanto o homem que só se atreve a falar solenemente.
Platão
Então o problema não está apenas em fazê-los rir, mas no que continuarão desejando depois. Podem rir do antigo vencedor e escolher outro para a mesma disputa. Podem até dar o prêmio ao Louco, desde que ele aceite que o prêmio continue a ser a medida do seu valor.
Aristóteles
E podem exigir que nunca deixe de ser Louco. Se ele precisar contrariá-los em tudo para conservar o nome, já não escolherá conforme a situação: escolherá o contrário do que esperam. Uma opinião não fica mais verdadeira por ser impopular. A pergunta é se ele ainda pode concordar quando há razão para concordar, mesmo perdendo o efeito que causa.
Platão
Isso tornaria seu retorno mais difícil do que a partida. Ao sair, afastou-se de uma ordem que tomava por inteira; ao voltar, precisa falar com homens cujos desejos ainda foram educados por ela. Não basta contar-lhes o que viu. Educar não é depositar visão em olhos vazios: é fazer com que a alma se volte para o Bem, pelo qual seus desejos devem ser julgados. Mas por que se voltariam, se aqui recebem tudo o que aprenderam a querer?
Aristóteles
Por isso não começaria exigindo que desprezassem tudo o que conhecem. É na vida que levam que terão de perceber alguma dificuldade: uma promessa de felicidade que não se cumpre, uma decisão que defendem mas não conseguem justificar. Ruyter pode ajudá-los a examinar esses casos. Mas continuo sem ver como o conhecimento de um Bem separado dos bens humanos o orientaria na escolha de como falar com cada um.
Platão
Não lhe daria uma fórmula para cada encontro. Mas discordaremos se o alívio de uma dificuldade bastar para encerrar a busca. Suponhamos que agora o escutem. Já não riem; contam suas palavras, repetem seus gestos, esperam que fale outra vez. Ele obteve a atenção deles. Terá começado a libertá-los, ou apenas lhes oferecido uma imagem mais interessante para contemplar?
Aristóteles
Isso dependerá do que fizer quando um deles deixar de olhar para ele. Se disser que aquele homem nada entendeu porque já não o acompanha, terá feito de si a medida que censurava nos outros. Eu lhe perguntaria o que deseja que esse companheiro seja capaz de julgar sem sua ajuda. Depois, ficaria para ouvir a resposta.

Diálogo imaginado, fora do tempo, inspirado em Platão e Aristóteles.

Vamos conversar.

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